18/07/2012

Finalmente um romance Vai Cagar!


Já era feio desde pequeno aquele bebê franzino... Todos olhavam e não conseguiam elogiar, alguns mais ousados diziam. - Neném que nasce feio depois fica que lindo não é? Dona Nelma triste chorava ao ver tamanha feiúra estampada no sorriso de seu menino de um ano, na festas as crianças na hora de cantar os “parabéns” simplesmente olhavam para o menino e não para as velas decoradas, e assim Gilberto Silva de Aroeira crescia... 
Aos seis anos foi para a pré-escola, obviamente não deixaram passar em branco os primeiros anos da vida daquele garoto, seus colegas caçoavam dele com apelido como Cabeça de Ovo, pois realmente sua caixa craniana parecia um ovo, esquisito, marreco, e na adolescência veio o singelo apelido colocado pela sua primeira paixão! 

Tonto de amor aos 12 anos ele não resistiu e ofereceu sua merenda para a colega de cadeira e a mesma em alto e bom som proliferou o que seria o seu carma. 
– Vai Cagar Gilberto!
Todos riram, até a professora de matemática não conseguiu se conter e assim todos os chamavam de Vai Cagar, piro era quando alguém novo chegava na turma da rua ou na escola e questiona o porque do apelido, sempre diziam estórias absurdas para justificar esse singelo nome... Assim os anos se passaram e aquele apelido insistente o seguia, virgem e agora com 17 anos sonhava quer tudo fosse se acabar no quartel, estava já com seu alistamento militar encaminhado e até o cabelo ele já cortava como soldado, franzino, com os dentes trepados, um sobre o outro, tinha no máximo um metro e meio sua pele era cheia de cicatrizes da catapora que teve aos 10 anos e que insistia em deixar marcas que ninguém tinha mais, assim Vai Cagar andava pelo pátio da escola, pela rua onde morava, por todos os lados com seu rádio de pilha e seus fones de ouvido, sempre a escutar a rádio relógio, pois, pensava que ali desfrutava de toda a curiosidade e conhecimentos que não eram mencionados nos telejornais, sabia que seu sucesso se deveria tão somente a inteligência, pois com sua ausência de beleza, nunca conseguiria um olhar atraente, e Vai Cagar não gostava de qualquer mulher não, jurou que se casaria com alguém por amor e que queria uma mulher muito bonita, pois, seus filhos não iriam padecer do mesmo sofrimento dele e assim ele cresceu só, pois as meninas que ele ousava olhar na maioria das vezes fugiam dele como o diabo da cruz.

Mas Vai Cagar foi para o quartel, lá era apenas mais um ninguém desapercebido. Na cultura de carreira militar, gozações e implicâncias faziam parte do dia-a-dia e assim Vai Cagar se formou o Soldado Aroeira, os melhores amigos o chamavam de Gil e ele nem lembrava mais que tinha tido uma infância terrível e altamente depressiva. No dia da festa de formatura Aroeira, ou melhor, Gil, quer dizer Vai Cagar era todo sorriso, suas sete irmãs paqueram os outros recrutas e sua Mãe Dona Nelma chorava discretamente para não desmanchar a linda data comemorativa...
... Quando de repente entra pelos velhos portões do 13O. Batalhão de Tiro de Guerra do Exercito uma mulher linda, com a pele negra e os cabelos cacheados caindo pelos ombros, um sorriso natural nos lábios e um andar que mais parecia um desfile, naquele momento tudo parou na vida de Gilberto, a corneta de chamada para formatura passou desapercebida e tudo o mais não tinha a menor importância, aqueles 10 segundos impactantes ficaria registrado como sua verdadeira paixão a primeira vista, para surpresa do Soldado Aroeira ela era irmã de um de seus melhores amigos... Pouco se falava sobre irmãs no quartel até porque ninguém queria ser chamado de cunhadão, ou qualquer “pilha” do gênero. Por isso assim seguiu ela passando por entre suas irmãs e jogando um leve sorriso em sua direção, suas pernas tremeram, sua irmã mais nova falou.

        Hííí! Essa baranga ta de dando mole Vai Cagar.
        Vai Cagar é o caralho Deolinda nunca mais me chame de Vai Cagar, se não toma uma bifa!
        Calma aí rapaz, você sempre foi chamado assim e nunca deu chilique!
        (Sua Mãe) Querem calar a boca, Gilberto Silva o moço lá na frente está te chamando, vá se ajeitar e vamos deixar de briga quer vocês são irmãos, e não chame mais seu irmão dessa desgraça de apelido, seu nome é Gilberto Silva Aroeira.

 Gilberto não parava de pensar naquela mulher, enquanto faziam as formações, cantavam os hinos para concluírem a formatura, pegavam seu certificado e apertavam a mão do General que tanto o fez sofrer, nada mais era importante ante aquela figura reluzente que entrou pelo seu coração. Sincronizadamente quando termina a cerimônia e os familiares começam a parabenizar seus recrutas começa uma chuva fortíssima, raios e trovoadas que pareciam bombas a despencar dos céus, suas irmãs negras com os cabelos escovados se desesperaram e correram feito loucas para a marquise mais próxima, ele sagazmente se aproxima do seu amigo e irmão de sua paixão a primeira vista e diz:

 -         Vamos entrar no galpão, ninguém vai brigar, temos que nos proteger desses raios.
 -    (Seu amigo Soldado Ernesto) Não Gil, se o sargento pega agente lá tem cadeia e eu não vou puxar cadeia de quartel no dia de minha formatura, quero ir pra casa que tem churrasco, mesmo com essa chuva.
 -         (Entra em cena Jurema) Há Carlinhos, eu vou pra esse galpão sim, to morrendo de medo doas trovões e dos raios...
 -         (Bmumumumumum)

E ela de repente pega na mão de Gilberto e fala.
 -         (Jurema) Vamos pro galpão, meu irmão não tem medo mais eu to apavorada!
 -         Claro (disse Gilberto com taquicardia).

E saíram correndo atravessando o campo de entrada do quartel. Ele nem sentia a chuva sobre a farda novinha e muito bem passada, suas mãos tocava pela primeira vez uma mulher, e ela é quem o pegou de assalto, era felicidade demais num só dia, todos os pedidos estavam sendo realizados, valeu a pena tanto esforço e calma aturando todo tipo de humilhação por ser feio, quando de repente ele se lembrou que era feio, um raio parecia que tinha certado seu lado mais belo e ele parou no meio da chuva e perguntou a ela já de cabeça baixa?

-         Você não quer voltar? Acho que acho ta diminuindo?
-         O que?

Um Raio estoura feito um rojão a 20 metros deles e ela o agarra e começa a chorar, todos começam a correr para dentro do galpão, ele fica abrasando ela por alguns segundos, era o que precisava para retomar o fôlego e agir.

-         Vamos, vem corre que agente vai sair da chuva, você já está toda molhada e pegou firme na mão de sua amada, sem perceber era ele quem a puxava agora, ela ia se sentindo segura com aquele soldado, quando de chegam na porta do galpão várias pessoas já haviam entrado também, todos com o corpo totalmente molhados, nada importava mais...

-         Qual o seu nome?
-         Jurema, feio né!
-         É o nome mais lindo que já ouvi na minha vida...



Um comentário:

  1. Os apelidos carmas indesejáveis ou as vezes o mal necessário em outros momentos uma ferramenta certeira pro abate, sei lá são várias vertentes possíveis para se amar ou se odiar um apelido, mais também é intranferível, e cada um tem o seu... imagine um cara que tem o apelido de xereca... Eu conheci dois... E vc se ve gritando no centro de NI, depois de muito tempo sem ver o amigo e não lembra o nome do sujeito, então vc solta alto e em bom som X E R E C A a resposta é imediata, todos olham ao mesmo tempo... São vários casos teriámos que dedicar uma postagem só pra falar dos apelidos ou dos carmas que cada um carrega com eles.

    ResponderExcluir