21/08/2011

Seara Hotel

Era por volta de duas da manha, madrugada de terça pra quarta, a brisa do mar era suave, eu dormia desde cedo, meu corpo doía da minha volta à academia, preciso cuidar mais da minha saúde física…
O sono foi ficando leve, quando saímos do estágio sono profundo para aquele quase acordar, meio sonhando, de repente;

Alguém começou a chorar no quarto ao lado, um choro forte, um choro de quem esta sentindo todo o coração dilacerar, um choro sofrido, infinito, daqueles que quando se ouve aperta o peito também, eu no inicio fiquei confuso, achei que a minha TV estava ligada, depois pensei ser a TV do quarto ao lado muito alta, mas àquela hora não se deveria ter som tão alto, havia uma porta trancada entre o meu quarto e o quarto que quela mulher chorava, na parede que dividia nossos quartos, SEARA HOTEL em Fortaleza, 19 andar, essas portas servem, para os casos em que grandes famílias se hospedam juntas e assim possam circular de forma privada, mudando e entrando em outro quarto, sem sair no corredor...
Mas aquele choro sincero e alto tirou totalmente meu sono, fiquei confuso, não sabia se pedia ajuda na recepção, fiquei quieto tentando ouvir se havia uma briga, cada segundo eram horas, quantas pessoas estavam com aquela voz de mulher, adulta, chorando como quem perdeu a maior das perdas, o choro não parava, não me deixava pensar, fiquei tenso…
Fui ate a porta que nos dividia, inicialmente pra tentar ouvir algo mais além do choro, depois deitei novamente, resolvi não me envolver, na esperança de fugir daquele pesadelo alheio e voltar para meu sono, eu as oito da manha já tinha uma palestra importante agendada e não podia estar cansado, nem com olheiras…

O choro não cessava!

Voltei à porta, queria ajudar já naquele momento, pensei em bater na porta, depois pensei em escrever um bilhete e por embaixo da porta, comecei a temer aquela mulher desesperada se suicidar e eu poder ter feito algumas coisa e não ter feito nada, merda de tormento, queria minha casa, minha cama, e eu sem ter a mínima ideia do que fazer.

Fiquei calado,
temi haver alguém armado, eu me meter poderia me enrascar, mas o choro ficava pior, fui para o banheiro, peguei o telefone e liguei para a recepção:

O recepcionista com voz sombria me falou.

- Acabou de se suicidar, uma senhora no apartamento ao lado do seu, não fique nervoso, já tomamos as devidas providencias e tudo esta sob controle, está tudo sanado!

Pirei!
Sanado!

O choro eu ainda ouvia, não era aquela mulher que havia se matado e sim outra pessoa,
quem sabe um parente, uma irmã, estava nervoso, suado e pelado, desesperado para sair do quarto, lembrei em olhar pela janela, poderia ver tudo, o corpo, essa sede curisosa, se era verdade ou não, fui andando, com medo da cena que iria encontrar, abri a janela, havia uma varanda, olhei em volta, olhei pra baixo, e para minha surpresa não tinha nada!

Voltei para o quarto e o choro não se ouvia mais, fiquei uns 15 minutos em silencio absoluto, nenhum sinal de choro, ou de qualquer barulho vindo do quarto ao lado.

Liguei para a recepção, atendeu outro rapaz, com voz calma e tranquila, me perguntou:

- Recepcionista Gomes. Boa noite Sr Goncalves, em que posso lhe ser útil?

- Gomes, liguei para a recepção há 20 minutos mais ou menos e informei que um uma mulher no meu apartamento vizinho, estava num intensa crise de choro, o atendente, com voz muito estranha e pausada me falou que havia acontecido um suicídio ao lado aqui, eu fui olhar pela janela e nada vi de corpo, o que esta acontecendo aqui?

- Sr Goncalves, creio estar havendo algum engano, o único quarto ocupado em seu andar e o do senhor, hoje um grupo de estrangeiros que ocupava o andar foi embora e o senhor é o primeiro a reocupar, posso ajudar em algo mais?

- Boa noite.




Lave as mãos!



Vivendo e tentando aprender a conviver.